MANUEL FIGUEIRA | Visões d'infinito
Retrospectiva de Desenho e Pintura | 1963 - 2005.
Arte Contemporânea de Cabo Verde |
126 obras em exposição
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Perve Galeria
de 03 de Abril a 07 de Maio de 2005
Horário: Segunda a Sábado | 14 - 20h

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Notas introdutórias a Visões d´Infinito

Trata-se de uma exposição, de carácter retrospectivo, da obra de Manuel Figueira, natural da ilha de São Vicente, em Cabo Verde. São apresentadas 126 obras, desenho e pintura sobre papel e platex, do período compreendido entre 1963, anterior à sua viagem para Portugal, onde viveu entre esse ano e 1974, tendo frequentado o Curso Complementar de Pintura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, até obras recentes datadas de 2004. É uma exposição tanto mais importante porque dá a conhecer aquele que é, provavelmente, um dos expoentes máximos da arte e cultura de Cabo Verde, tendo sido responsável, entre muitas outras coisas, pelo desenvolvimento da Cooperativa Resistência (1976) e, posteriormente (1978-1989), pelo Centro Nacional de Artesanato, onde fez investigação sobre o processo de tecelagem tradicional de Cabo Verde e revitalizou esta técnica criando e desenvolvendo trabalhos artísticos especificamente para esse suporte.

O mote da exposição - Visões d'Infinito - pretende a sugestão reflexiva entre obra e vida do autor, numa dinâmica de relacionamento entre as épocas em que os trabalhos foram feitos e os caminhos, locais, sonhos e desafios que se colocavam (e colocam ainda) a Manuel Figueira, sobretudo naquilo que lhe é mais particular e que, afirma, continua a ser o seu caminho: "a utopia e o colectivo", como elementos potenciadores de uma sociedade infinitamente melhor, em estado de arte.

Sobre o autor, refira-se que tem realizado exposições individuais e participado em mostras colectivas,ininterruptamente, desde 1963, em países como Portugal, E.U.A., Bélgica, Espanha, França, Brasil, Áustria e, naturalmente, Cabo-Verde. A sua obra está representada em inúmeras colecções públicas e privadas de diversos países, com destaque para as peças incluídas nas colecções do Museu de Ovar, Banco Fomento, Banco Totta & Açores, A.N.P. (Cidade da Praia, Cabo Verde), Embaixada de Cabo Verde para a ONU (Nova Iorque) e palácio da Cultura (Cabo Verde). Em 1988, foi galardoado com o Prémio Jaime Figueiredo (Ministério da Cultura e Desportos de Cabo Verde) e em 2000 foi agraciado com a "Medalha do Vulcão", condecoração atribuída, por ocasião do 25º Aniversário da Independência de Cabo Verde, pela "Importante actividade nas áreas da pintura e do artesanato e sua louvável dedicação à pesquisa e ao magistério".

Sendo esta a primeira exposição retrospectiva, deste admirável autor, realizada em Portugal, estamos convictos que se trata de uma oportunidade irrepetível para a descoberta da singularidade contida na linguagem encantatória de Manuel Figueira, aqui reflectida por múltiplas Visões d’Infinito.

Cabral Nunes | Perve Galeria

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Das histórias de Cabo Verde, pintadas por Manuel Figueira

São histórias das dez ilhas. As histórias estão aqui narradas nas obras de Manuel Figueira, obras essas que do atelier, em São Vicente, vieram “morar” agora numa Galeria situada entre as ruas, estreitas e antigas, da colina mais histórica de Lisboa, a Lisboa deste pintor nos anos sessenta, a do tempo de estudante da Escola de Belas Artes, dos seus combates e sonhos cívicos, utopias e solidariedade por um novo mundo que hoje, mais do que nunca, se interroga, ou se parece esvair, noutros princípios e desejos de realização. Mas estas obras de Manuel Figueira são talvez mais histórias de uma ilha única de capital Mindelo, onde o pintor vive, trabalha, escuta, observa, imagina, relembra, critica e reconstrói - pela sua memória tão rica - as realidades das pessoas e dos factos que irá transpor para as suas obras, algumas delas antes esboçadas em desenhos minuciosos, com pormenores de personagens e situações que irão ser depois temas privilegiados, tais como “Antónha d’Ia”, “Urinando em desafio”, “Quês dôs crióla e três cueca” e “Jonsóna-O/A Hemafrodita”.

Estóreas da Morada, poderia Germano Almeida intitular um dos seus livros que também só se poderia ambientar no Mindelo, cidade-paradigma da vida cultural crioula, histórias que, por vezes, Manuel Figueira incorpora num fantástico entre céu e terra, (ex: “Aquele fantástico Carnaval: cabras, bois alados, músicacórnea e Narciso”) que nos envolve e prende com “narrações” pintadas em cores do azul e verde do mar, do amarelo e do ocre da terra, às vezes quase avermelhada, das cores das cinzas do vulcão que, na ilha do Fogo, é sentinela telúrica do que vem da terra e na terra fica.

Da sua terra é também alguma temática da pintura de Manuel Figueira, testemunha ímpar do percurso de pioneiro na recuperação cultural de um património de artesanato, do qual, com poucos outros companheiros, foi protagonista, após a Independência do seu país, recuperação hoje tão mal compreendida e abandonada, apenas por quem teima em esquecer ou ignorar uma realidade. Títulos como “Nhô Griga os liços e a urdidura”, “Nhô Griga tecendo o seu calabêdótche multicolo”, são presença evocatória dessa profunda cultura cabo-verdiana, como também são presenças da mesma cultura, embora numa vertente literária, as ilustrações que Manuel Figueira foi realizando para a obra poética de Francisco Fragoso (Kwame Condé), para o Poema do Capitão Ambrósio de Gabriel Mariano ou ainda para poemas de Osvaldo Alcântara, apenas para citar algumas.

Escrever em poucas linhas sobre um pintor e a sua obra não nos acontece todos os dias. São atribulados caminhos de síntese em que tudo nos parece ficar por dizer, corre-se o risco de soletrarmos uma tabuada de lugares comuns, mesmo assim pouco inteligível para os visitantes. Melhor será que esta exposição seja vista, sobretudo, como a revelação de um momento excepcional cabo-verdiano para o público português, revelação de desígnios e de interpretações, de desencontros e de encontros nos incidentes humanos das histórias das ilhas, onde tudo se acha do que nos acontece entre um crepúsculo no mar e um cais de porto, ilhas onde a beatitude é um privilégio da noite e da cumplicidade de estrelas candentes, que são depois os destinos de todos nós, iluminados e fugazes, antes que alguém os retenha e os explique como o faz Manuel Figueira nas suas obras.

João Nuno Alçada

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Ficha Técnica
Exposição
Comissário:
Cabral Nunes
Assistência na Montagem: Nuno Espinho da Silva e Nicolas Defraiteur
Promoção e Divulgação:
Nuno Espinho da Silva
Catálogo | Site:
Cabral Nunes
Colaboração | Agradecimentos: João N. Alçada, Luisa Queiroz e Sérgio Figueira

NOMA - VideoDoc #07| Manuel Figueira
Realização | Captação Audiovisual:
Cabral Nunes
Edição Vídeo | Pós-produção:
Nicolas Defraiteur
Edição Áudio:
Sérgio Henriques
Produção:
Nuno Espinho da Silva

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