Mário Cesariny

N. Lisboa, 9.8.1923.
Pintor e poeta

Depois de estudar na Academia de Amadores de Música, no Liceu Gil Vicente, sob a orientação do professor Fernando Lopes Graça, ingressou no princípio da década de 40 na Escola de Artes Decorativas António Arroio onde conheceu, entre outros, Marcelino Vespeira, Fernando de Azevedo, Júlio Pomar, José Leonel Rodrigues, Fernando José Francisco, Cruzeiro Seixas e António Domingues. Foi na companhia destes que começou a frequentar em 1942 o Café Herminius, na Avenida Almirante Reis, espaço que se transformaria rapidamente num lugar de reuniões e actuações proto-dadaístas dos jovens estudantes, alguns dos quais viriam a acompanhá-lo na aventura surrealista dos anos seguintes.Em 1944, adere ao neo-realismo e, um ano depois, confirmando a sua militância, profere perante um público composto por operários uma conferência intitulada A Arte em Crise. Por esta altura, também, inicia a sua colaboração na página cultural «Arte» (dirigida por Júlio Pomar) do jornal portuense A Tarde.Até 1947, porém, vai-se afastando do movimento, descontente (como outros) com os seus limites e imposições. Escreve o poema Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos e realiza uma das suas primeiras experiências plásticas vanguardistas, uma colagem sobre a figura do General de Gaulle, evidenciando já uma situação de ruptura estético-política, que se consuma em 1947.É nesse ano que prepara e promove a fundação do surrealismo em Lisboa com Alexandre O’Neill, António Domingues, Fernando de Azevedo, José-Augusto França, Marcelino Vespeira e João Moniz Pereira, e viaja até Paris com o objectivo de estreitar laços com o grupo de André Breton e de divulgar as actividades de Lisboa.Produzirá, entretanto, várias obras de cariz informalista, como O Operário e Figuras de Sopro, mas não chega a integrar definitivamente o colectivo recém-formado, que entretanto havia sido baptizado de Grupo Surrealista de Lisboa (GSL). Em 1948, numa carta enviada a O’Neill e Domingues, manifesta o seu desacordo e afasta-se para formar com Pedro Oom, Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa e Cruzeiro Seixas outro grupo, Os Surrealistas.Participará em inúmeras polémicas com o GSL, e apresentará pela primeira vez em público obras da sua autoria na primeira exposição colectiva dos Surrealistas, em 1949, numa antiga sala de projecções de nome Pathé-Baby. As polémicas, das quais é um dos protagonistas (se não o principal), acentuam-se nos três anos seguintes através da redacção e do envio de folhas volantes, troca de correspondência e conferências. Em 1950 publica Corpo Visível e integra a segunda exposição colectiva dos Surrealistas, desta vez na Livraria Bibliófila, também em Lisboa.A partir de 1952, o grupo inicia um processo de desintegração progressiva. Cesariny, por sua vez, permanece activo artisticamente, tanto na poesia, como nas artes plásticas, e passa a conviver frequentemente com Luiz Pacheco, Manuel de Lima, António José Forte, João Rodrigues, Manuel Castro, João Vieira, Hélder Macedo.Publica Titânia (que a editora Assírio & Alvim reeditará 40 anos depois) e apresenta em 1956 uma exposição das suas capas-poemas-objectos na Livraria António Maria Pereira, em Lisboa. Um ano depois lança Pena Capital e em 1958 realiza a sua primeira exposição individual de pintura, na Galeria Diário de Notícias, em Lisboa, a que se seguirá outra, desta vez no Porto, na Galeria Divulgação.No princípio da década de 60, a Guimarães Editora publica mais duas obras de poesia da sua autoria (Antologia do Cadáver Esquisito e Planisfério e Outros Poemas) e, com Mário Henrique Leiria, participa numa exposição, na Galeria Carlos Battaglia.
Em 1963 resgata a poesia surrealista, com o apoio da editora Minotauro, publicando Surrealismo / Abjeccionismo. Antologia de Obras em Português Seleccionadas por Mário Cesariny de Vasconcelos e em 1966 a editora Ulisseia dá a conhecer ao público A Intervenção Surrealista.Nos anos seguintes, e até meados da década de 70, Mário Cesariny participará em várias exposições colectivas e individuais, algumas das quais se realizarão no estrangeiro (Bruxelas, Lima, Chicago, São Paulo). É por esta altura que estabelece contactos com o grupo da revista Phases (chega a participar, em 1973, na exposição internacional do movimento, em Lyon) e a sua obra pictórica assume nova juventude com pinturas como Linha de Água ou Vai Começar Outra Vez.Nos anos 80 é o sujeito de exposições em Lisboa, Almada e Torres Novas, traduz textos de Rimbaud, Novalis e Buñuel e a sua produção escrita é objecto de uma reedição global. No ano de 1988, a Phala, revista editada pela Assírio & Alvim, dedica-lhe um número especial, com textos de Herberto Hélder, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, Ernesto Sampaio, Fernando Pinto do Amaral e Manuel Hermínio Monteiro.

por José Marmeleira
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EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
1956
Exposição de capas-poemas-objectos, Livraria António Maria Pereira, Lisboa.

1958
Galeria Diário de Notícias, Lisboa.

1959
Pintura e Poesia, Galeria Divulgação, Porto.1963
Tábuas, Pinturas e Objectos, Galeria Carlos Battaglia, Lisboa.
1967
Galeria Buchholz, Lisboa.
Galeria Divulgação, Porto (com Cruzeiro Seixas).
1971
Galeria São Mamede, Lisboa.
1972
Galeria Alvarez, Porto.
1973
11 Crucificações em Detalhe / 3 Afeições de Zaratustra / Retrato de Jean Genet, Galeria São Mamede, Lisboa.
1977
1947-1977, Galeria Tempo, Lisboa.
1979
Galeria Tempo, Lisboa.
1981
Galeria de São Francisco, Lisboa.
Galeria 22, Viseu.
1982
Museu Municipal de Amarante, Lisboa.
1986
Livraria Assírio & Alvim, Lisboa
1988
O MAR-I-O CESARINY. O Navio dos Espelhos. Aquamotos e Pinturas Circulares, Galeria EMI/Valentim de Carvalho, Lisboa.
1997
Livraria Assírio & Alvim, Lisboa.
2001
Galeria Neupergama, Torres Novas.

EXPOSIÇÕES COLECTIVAS
1949
I Exposição dos Surrealistas, Pathé-Baby, Lisboa.
1950
II Exposição dos Surrealistas, Galeria da Livraria Bibliófila, Lisboa.
1967
XIII Exposição Internacional de Surrealismo, São Paulo.
1969
Exposição Internacional Surrealista, Haia, Holanda.
1973
Exposição Internacional de Homenagem a César Moro, Lima, Peru.
Phases, Galerie du Passe Muraille, Lyon.
1974
Phases, Musée D’ Ixelles, Bruxelas.
1975
O Cadáver Esquisito, Sua Exaltação Seguida de Pinturas Colectivas, Galeria Ottolini, Lisboa.
1976
World Surrealist Exhibition. Marvelous Freedom – Vigilance of Desire, Chicago.
1977
Phases, Galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol, Estoril; Galeria Dois, Porto.
1978
Claridade Dada pelo Tempo, Homenagem a Mário Henrique Leiria, Galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol, Estoril.
Exposição Homenagem a António Maria Lisboa, Galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol, Estoril.
Surrealism Unlimited, 1968-1978, Camden Arts Centre, Londres.
Exposição comemorativa do Primeiro Centenário da Histeria, Wisconsin.
1979
Presença Viva de Wolfgang Paalen, Museu Carrilo Gil, Cidade do México.
1980
Papeles Invertidos, Santa Cruz de Tenerife, Canárias.
1983
Le Surréalisme Portugais, Galeria UQAM, Universidade de Montréal, Canadá.
1984
Surrealismo e Pintura Fantástica (exposição internacional), Teatro Ibérico, Lisboa.
1991
Galeria Almadarte, Costa da Caparica.
Pavilhão AB do Jardim do Tabaco, Lisboa.
1992
Arte Portuguesa nos Anos 50, Biblioteca Municipal de Beja, Beja; Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa.
1993
47 Anos de Pintura, Galeria Neupergama, Torres Novas.
1994
Primeira Exposição do Surrealismo ou Não, Galeria São Mamede, Lisboa.
Surrealismo (e Não), Fundação Cupertino Miranda, Vila Nova de Famalicão.
1999
Linhas de Sombra, Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Lisboa.
2001
Surrealismo em Portugal 1934-1952, Museu do Chiado, Lisboa